Como ser uma Maria da Vila Matilde?

10-01-2017. Madrugada. Esta terça-feira de verão acaba de chegar. Como de costume, leio a espera do meu sono encantado em seu cavalo branco… Leio um livro teórico bem útil para o livro que pretendo escrever ainda neste ano (aguardem). Tenho certeza que eu estava concentrado e que estava entendendo tudo sobre os diferentes tipos de livros-reportagens (entreguei, mas o tema continuará em segredo).

Voltando a leitura… eu juro que eu estava compenetrado, até que gritos foram ouvidos por mim. Ouvi gritos que indicavam sair de dentro de um ser humano do sexo feminino. Sim, de uma mulher. O livro já não estava mais em minhas mãos, eu já não estava mais deitado… A calma que preenchia meu quarto havia desaparecido. Corri para a sala, porém, do meu quarto dava para se escutar mais claramente os gritos.

Realmente não sei de quem eram aqueles berros… da vizinha do lado direito, do esquerdo, da frente ou do fundo. Julgo ter vindo do lado esquerdo… isso não importa. O que interessa é que eu cresci ouvindo gritos de mulheres no meu setor. Importa que eu não apenas já ouvi como já vi uma moça jovem, mãe de duas crianças, sendo espancada pelo o homem que devia lhe amar, proteger e ser sua companheiro em frente a minha casa.

Fico desesperado quando ouço gritos femininos, pois sei que minha madrinha, uma das mulheres que mais amo nesta vida, já foi vítima de violência doméstica por seu ex-marido. Naquela época, eu era criança. A lei Maria da Penha ainda não existia e me lembro de meu primo, seu filho, narrar as agressões.

Fico desesperado quando ouço gritos femininos, pois me lembro de uma coleguinha na infância, Laila, contar que sua mãe apanhava do companheiro na época. Ela nos contava que ele a levava para o quarto, a trancava e, então, o pior ocorria…

Fico desesperado toda vez que sei que tem alguma mulher sendo agredida por seu cônjuge, pois sei que há crianças envolvidas nisso. Lembro-me de ter colegas na escola, que assim como a Laila, do nada soltava uma bomba dessas para a gente no recreio ou não. Lembro-me de um coleguinha, que não me recordo seu nome, dizendo que “acabaria” com o namorado e agressor de sua mãe.

Eu fico realmente apavorado nesses momentos, pois não sei o que fazer, que medidas eu, vizinho de uma mulher que está sendo agredida, devo tomar. Devo chamar a polícia? Ligar para 180 como bem nos ensina Elza Soares em Maria da Vila Matilde (porque se a da penha é brava imagina a da Vila Matilde) Gritar? Ir Até lá e tocar a campainha? Deixar um recado debaixo do portão? O que? O que?

De tudo isso, tenho certeza que algo eu, como cidadão, ser humano com compaixão e reverso a qualquer tipo de violência que sou devo fazer algo. Acredito que o meu silêncio de alguma forma está sendo condicente com a agressão sofrida por minha vizinha ou por qualquer outra mulher no Brasil ou no mundo.

Em um país onde 405 mulheres são agredidas por dia, ou seja, uma a cada quatro minutos, de acordo com dados do Mapa da Violência – Homicídio de Mulheres, é mais do que necessário todos nos manifestarmos, levantarmos das nossas camas e deixarmos de lado a leitura de nossos livros para ajudar quem precisa.

Imagem: Reprodução da Internet