No ônibus

               

Dentro do ônibus, como sempre, sentado do lado do sol- sim, ainda não aprendi que depois do meio dia a intensidade de raios solares do lado esquerdo do ônibus é maior- vejo inúmeros motoristas fazendo besteiras no trânsito, inclusive o motorista responsável por levar dezenas de pessoas, incluindo eu.

Aprendi, com o dever do ofício de jornalista, que é sempre bom deixar os fones de ouvido em casa e encarar um ônibus sem eles… Assim sendo, eu ouço de tudo um pouco.

Ouço os vendedores de água gritarem desesperadamente “Só um real!!!”, “Lá no terminal é dois ‘real’, aqui é só um real!!!”, “Aproveita que tá acabando!!!”… Creio que já sei o livro “Apocalipse” de cor e salteado graças aos pregadores evangélicos que insistem em querer-me/te/nos salvar. Tô bem…não preciso ser salvo! Na bíblia deles só há esse livro?

Também ouço mulheres gritarem de dentro do ônibus para motoristas mulheres na rua “TINHA QUE SER MULHER!!!” Pasmem! Sim, mulheres! Ouço as mesmas reclamando dos patrões que chegaram hoje atrasados e, por isso, elas chegarão tarde em casa. Além de reclamarem que terão de ir trabalhar no sábado. Que absurdo, patrões!

Mas, essas mesmas mulheres também gritam de dentro do ônibus para centenas de manifestantes mulheres que protestam contra o machismo dos nossos deputados: “VÃO LAVAR UM TANQUE DE ROUPA, SUAS DESOCUPADAS” ou “VÃO TRABALHAR!!!”

Ah, ainda há as conversas no telefone. Semana passada, um jovem que estava atrás de mim conversava com sua crush. Que dó que senti da moça do outro lado da linha. Espero que ela não tenha caído na auto-propaganda porca e nada convincente do rapaz. “Você ‘que’ beijar na minha boca?”. Quem diz isso em pleno ano de 2017, gente?!

Há ainda aqueles que não conversam por telefone, mas sim pelo Whatsapp. Não que eu queira ler a conversa dos outros. Jamais. No entanto, elas estão sentadas do meu lado e do lado da janela… então, os olhos involuntariamente cai rapidamente para a tela do celular do ser humano ao meu lado. Ô, Bruno, para de escrever “eh” ao invés de “é” para meu colega aqui de assento do ônibus!

Ônibus também é lugar de encontros de pessoas que há anos não se veem. Que maravilha! “Esse é o Vinícius, seu filho?” “COMO ELE TÁ GRANDE!!!” Que bom é reencontrar amigos que há tempo não vemos, mas será que não dá pra fazer menos barulho, gente?

Dentre todos os passageiros num ônibus lotado, os que mais conversam não são as mulheres e nem os amigos da construção… sim, são eles e elas, exatamente os surdo e as surdas. Pergunto-me, surpreendido, como é possível tamanha habilidade de conversar com apenas uma mão enquanto a outra segura a barra de ferro para não cair.  Claro, que tem momentos que eles e elas abraçam a barra para fazer algum sinal que requer o uso de ambas as mãos.

Desde 2016, a violência e o número de roubos aumentaram no transporte público coletivo nas grandes cidades brasileiras… assaltos, assaltos, furtos e mais furtos…inclusive eu fui roubado ano passado dentro de um em pleno meio-dia.

É cada história assustadora que meus “busmates” contam. Infelizmente, desde o aumento da criminalidade tenho andado com os olhos esbugalhados e a cada pessoa que se aproxima de mim, é um pulo.

Ah… é cada história para contar de momentos num ônibus…

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Resoluções para 2017 e divagações

Início de ano sempre traz com ele aquelas listas inconvenientes de resoluções.  Qualquer coluna que se lê ou qualquer vlog que se assisti só se fala disso, diferentemente, dos noticiários que se dividem entre a crise nas penitenciárias, agora com a participação das Forças Armadas para controlar as rebeliões, e a morte do ministro Teori Zavaski. Já no Facebook… tá rolando cada teoria da conspiração, que vou te falar…

Eu, ser como qualquer outro, também entrei nessa de lista de resoluções e fiz a minha. Dentre várias promessas- que, claro, não cumprirei nem a metade- escrevi como primeira e mais necessária para 2017: escrever mais.

Por isso, criei este blog que vos “escreve”, para que assim eu me comprometa em escrever semanalmente pelo menos um textinho. Sim, eu sei que semana passada eu só postei um. Farei de tudo para ser mais rigoroso quanto a isso (mais rigoro que já sou comigo). PS1: detesto gente devagar, sonolenta e sem foco. Pronto falei!

Por isso, a lista é grande. Além de escrever semanalmente para o Salada Caesar, também escreverei um livro. Sim, um livro. Porém, será um livro reportagem, cujo projeto está quase pronto. Para quem não sabe o que é um livro-reportagem, é mais um de vários veículos de informação, de jornalismo surgido nos Estados Unidos e chamado pelas bandas de lá de Newjournalism. Indico “Olga” de Fernando Morais, “Rota 66” de Caco Bracellos e “Hiroshima” de John Hersey entre um alista imensa que existe.

Também está na lista de sonhos inalcançáveis, a promessa de ler mais jornais e assistir mais aos noticiários. Até mesmo estudo para isso, não é mesmo? Ano passado, com toda aquela reviravolta na política brasileira, vi que ler jornais e assisti-los estavam me deixando doente. Hoje, com a poeira um pouco mais baixa (nem tanto assim), me permito lê-los. Amo ler jornais, assistir aos telejornais e a ouvir rádio.

          O ano de 2017 tem apenas 22 dias e já li tanto, já assistir a vários filmes e documentários, já escrevi muito e já conheci tantas “coisas” maravilhosas.

Conheci uma banda espanhola chamada Belako. Formada por duas girls power e dois rapazes, Belako é simplesmente arrebatador. PS2: ouço há 5 dias seguidos.

Ah, outra banda “daora” é Cherry Glazerr. Formada em Los Angeles em 2012 pelos músicos Clementine Creevy, Tabor Allen e Sasami Ashworth. Indico “Told You I’d Be With the Guys” e “Had Ten Dollaz”.

        Antes de ontem, assisti a “Paris, Texas” de Wim Wenders e “Barry”, filme que narra a chegada em Nova York e a militância do jovem e, hoje, ex- presidente dos USA, Barack Obama. “Barry” foi dirigido por Vikram Ganhi e está disponível desde o dia 16 de dezembro na Netflix.

Por fim, preciso apresentar para o mundo um grupo de mulheres artistas e feministas que

paris_texas_poster
Imagem de Divulgação

questionam o papel feminino na arte e, claro, também na sociedade. Elas são conhecidas como Guerrilla Girls. Elas que são conhecidas por suas máscaras de gorilas. O uso da máscara tem o proposito de o foco estar sempre na causa e não nelas.

 

Termino esta crônica semanal toda estranha e bagunçada parabenizando todas as “women, trans-people, men and youth”- como bem lembrou Angela Davis– que participaram ontem (21) da Women’s March nos USA e ao redor do mundo. Vocês encheram nossos olhos, corações e timeline de esperança de um mundo melhor para todos. Obrigado!

PS3: ao assistir à cerimônia de posse do novo presidente americano, Donald J. Trump e a marcha das mulheres, terei mais uma resolução para 2017: ouvir mais às mulheres ao meu redor e levar em consideração o que elas dizem.

Imagem: Guerrilhas girls/ reprodução internet

Apesar dos pesares, FELIZ ANO NOVO!

Tinha me programado para escrever um texto diferente. A palavra diferente, neste contexto, quer dizer: pessimista. Mas, agora, tarde ensolarada e com sensação térmica de 40 e alguns graus, acabo de receber as fotos da comemoração de ano-novo e estou sorrindo muito delas.

As vejo,  gargalhando… chega a dor minha barriga. Na sala, meu pai grita: “Você está sorrindo ou chorando?”. Poderia ser os dois, mas estou apenas sorrindo mesmo.

Depois de tudo que o Brasil passou em 2016: a queda da primeira presidenta brasileira, o golpe (sim, golpe), a retirada de direitos e a guinada conservadora, a qual estamos presenciando; terminar esse ano, que foi “pauleira” assim, rodeado de amigos queridos me faz ainda ter esperança de que o jogo pode virar.

Prometi que não me referiria à situação atual. Sim, eu sei. Bem que eu tentei. Esforcei-me para escrever sobre as comidas típicas das ceias, das músicas tocadas nessas festas e até sobre a nova onda do karaokê nas festas de fim de ano. Porém, não consigo ignorar os recentes acontecimentos. No entanto, começar o ano com a família que a gente escolhe (me refiro aqui aos amigos e amigas) revigora a alma. Não havia melhor forma de entrar em 2017.

Com certeza, é assim que pensa a humanidade. E é assim que também pensaram Luiz Carlos Ruas e Isamara Filier. Reflito-me, enquanto sorriu ao ver alegria em meu rosto e de meus amigos nas fotos, que era para o Luiz Carlos Ruas, ambulante brutalmente assassinado dentro da estação do metrô Pedro II, no centro de São Paulo, estar neste momento também vendo as fotografias da comemoração de Réveillon com sua família.

Era também para Isamara Filier e seu filho, João Victor, e as outras dez pessoas assassinadas na tragédia de Réveillon em Campinas, estarem vendo as imagens da comemoração, comentando-as e rindo de fulano por ter saído com os olhos fechados, ou então por ciclano ter sido clicado com a boca aberta cheia de farofa de banana, bacon e passas… Entretanto, isso não ocorrerá.

Infelizmente, o ano 2016 não terminou bem. O assassinato de Índio, como Ruas era conhecido, simplesmente, por ter defendido a travesti Raissa, agredida  pelas mesmas mãos que o tirou a vida é lastimável. Aqui, mais uma vez, vemos a presença do ódio ao feminino.

Já 2017 não chegou bem . O tanto que as pautas por igualdade entre os gêneros tiveram visibilidade na mídia e na internet durante o tenebroso 2016, o tanto que o feminismo foi verbalizado pelos veículos de comunicação e, claro, pelas redes sociais (tivemos até uma “primavera feminista”), Madonna fechou o ano com “chave-de-ouro” ao discursar na premiação  A Mulher do Ano da Billboard… e, então, 2017 iniciar já com um crime de feminicídio é, no mínimo, doloroso.

 Para fechar o primeiro texto do ano, poderia desejar os mesmos clichês de sempre, todavia, acredito ser importante finalizá-lo com uma das mulheres que mais tem pensado e colaborado com direitos das mulheres brasileiras.

Aqui, uso as palavras da Debora Diniz, antropóloga e professora de Direito da Unb, em seu último texto no HuffPost Brasil, para desejar a todos os homens que assim como eu foram criados embaixo da “proteção” de uma família machista: “Homens, não sejam cúmplices do matador de ano-novo: se não suportam ver as mulheres livres e independentes em 2017, ao menos se silenciem. Deixem as mulheres em paz”.